quarta-feira, 18 de julho de 2012
Na terra do coração
Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Caio F. Abreu
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Mas não é verdade
Mas não é verdade, Hilda, não é verdade que as pessoas se repitam. O que se repetem são as situações, inúmeras vezes — e você sabe que qualquer situação que nos acontece é por nossa culpa. Principalmente quando ela se repete muitas vezes. Tudo o que acontece à gente é uma mera conseqüência daquilo que se fez.
(Caio Fernando Abreu, carta a Hilda Hilst)
A solução
A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem-vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete.
(Caio Fernando Abreu, carta a José Márcio Penido)
domingo, 15 de julho de 2012
E não sei o que dizer, Zézinho
E não sei o que dizer, Zézinho, não tô bem. Isso é uma coisa que eu posso dizer, tendo certeza dela. Mas é também uma coisa pela qual você não pode fazer nada, e de pouco adianta eu dizer. Ô, Zé, ando tão desorientado, já faz tempo. E me escondo, e não procuro ninguém, e fico mastigando a minha desorientação.
Caio F. Abreu
Talvez
Talvez, afinal, eu devesse parar de bancar o durão e começasse a aprender a: receber cuidados.
Caio F. Abreu
Lama da vida
Amo tudo que afunda a cara na lama da vida crua e consegue arrancar o belo desse mergulho.
Caio F. Abreu
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