quinta-feira, 19 de julho de 2012

Admitiu o medo



Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele — finalmente, podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela.

(Caio Fernando Abreu. A gravata, in: O Ovo Apunhalado)

Recompôs-se



Recompôs-se, brusco. Não, melhor não falar nada. Admitia que não conseguisse controlar seus pensamentos, mas admitir que não conseguisse controlar também o que dizia lançava-o perigosamente próximo daquela zona que alguns haviam convencionado chamar loucura. E essa era a primeira vez que se descobria assim, tão perto dessas coisas incompreensíveis que sempre julgara acontecerem aos outros — àqueles outros distanciados, melancólicos e enigmáticos, que costumava chamar de os-sensíveis  — jamais a ele. Pois se sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas.  

(Caio Fernando Abreu. A gravata, in: O Ovo Apunhalado)

Vi Deus


De outra vez vi Deus, era um menino que me dizia para não perder a infância, que a infância era Deus.

Caio F. Abreu

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Na terra do coração


Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Caio F. Abreu

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Mas não é verdade



Mas não é verdade, Hilda, não é verdade que as pessoas se repitam. O que se repetem são as situações, inúmeras vezes — e você sabe que qualquer situação que nos acontece é por nossa culpa. Principalmente quando ela se repete muitas vezes. Tudo o que acontece à gente é uma mera conseqüência daquilo que se fez. 

(Caio Fernando Abreu, carta a Hilda Hilst)

A solução


A  solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem-vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente  destemperados,  certo?  Não  há  que  abster-se:  há  que  comer  desse banquete. 

(Caio Fernando Abreu, carta a José Márcio Penido)

Há algo




Há algo na sua essência que me agrada, me acalma, e me diverte!

Caio F. Abreu
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